domingo, 23 de março de 2008

O valor da palavra impressa

A Tribuna do Povo, Umuarama, quinta-feira, 6 de março de 2008
Espaço do Leitor

Nos nossos tempos, de tecnologia mais acessível, torna-se mais barato e rápido enviar um e-mail (correio eletrônico) do que escrever uma carta. Não que seja gratuito, sempre há o custo proporcional de cada mensagem: para obter um computador (talvez maior do que com papel e tinta) e para pagar por uma conexão (talvez maior do que o usual com correio convencional). Mas o custo proporcional é menor em função da grande quantidade de material escrito que se pode enviar por um computador ligado à internet, com segurança e entrega imediata para várias pessoas. Algo que impresso teria custos inviáveis para pessoas físicas ou até pequenas e médias empresas.

Porém, pergunto: todo o material eletrônico que se envia e recebe diariamente tem o mesmo valor simbólico que teria se fosse impresso? De tão fácil de enviar e receber também não se torna ainda mais fácil de ignorar e/ou descartar? Em alguns casos reconheço que o valor acaba sendo o mesmo. Há panfletos publicitários, anúncios de vários tipos e até pequenos catálogos ou revistas gratuitas que recebo por correio convencional, que sequer abro e mando logo para a reciclagem. Mas nem sempre se dá o mesmo.

Imaginem se uma carta ou cartão de aniversário ou natal, mesmo um bilhete ou telegrama, impressos ou manuscritos, que alguém receba de uma pessoa amiga, seria jogado fora com a mesma facilidade com que se deleta (apaga) um e-mail ou um scrap (mensagem) no orkut... Para mim, pelo menos, não. Um cartão de uma pessoa amiga impresso e assinado me parece ter outro valor que não o de uma imagem, até do mesmo teor, num monitor de computador. Há quem guarde, arquive e releia depois, mesmo suas mensagens eletrônicas. Eu o faço. Mas noto que não têm o mesmo peso simbólico, a mesma personalização, a mesma indicação de empenho e dedicação do remetente no ato do envio.

Não é só uma questão de saudosismo, de fato há muito tempo não recebo algo pessoal pelo correio. Mas quero conduzir o diálogo aqui para a distinção entre a palavra veiculada em mídia digital e a palavra impressa. Atentem apenas para o seguinte: aquilo que recebemos de mais especial nas próprias mensagens eletrônicas não nos incentiva mesmo a imprimi-las para podermos ler não só na tela, mas também em nossas próprias mãos? A estética (a sensibilidade) envolvida, não é outra? Temos o tato, temos a noção da totalidade do volume do texto. Será que alguém hoje já prefere um e-book a um livro impresso, salvo pela possibilidade de aplicar recursos de busca e hiperlinks? Ainda penso que seja preferível um livro real com um bom índice remissivo.

A sensação de se ler um livro impresso é outra. O domínio sobre o material é diferente, e mesmo a forma de fazermos nossas anotações sobre ele tem sua peculiaridade. Se não for assim, digam-me apenas se ao ganhar um livro ou uma coleção de presente, científicos ou ficcionais, técnicos ou de entretenimento, você ficaria mais contente com algo impresso ou com um arquivo de ou um pacote baixado pelo e-mule? O caráter descartável, de reprodução em série instantânea, faz da palavra digital algo mais trivial e, para alguns, até banal. Se perco, logo recupero. Se apago, logo “baixo” outra vez. Não há relação de pertencimento, não há marcas pessoais como, por exemplo, num livro com uma dedicatória – peça única, que extraviada causa sensação de perda.

Por fim, além da carta e do livro, quero falar sobre outra forma de escrita, onde a tinta sobre o papel faz bastante diferença, que é a da publicação de nossas palavras. Pensemos no caso de um artigo de jornal como esse que eu escrevo ou algum que você deseje escrever para este periódico. Não é diferente a sensação de vermos impressas nossas palavras num jornal do que a de vermos as mesmas palavras publicadas num “blog” ou num “site”? Por mais que o número de pessoas que as possa acessar, em tese, seja maior? O jornal, contudo, trabalha com três operadores básicos, nem sempre dados na cena virtual: 1) a seletividade – nem tudo se publica, já na internet toda e qualquer coisa pode estar “on line”; 2) a responsabilidade – tudo o que se diz se deve assumir pessoalmente, pois leva assinatura, já na internet se pode pô-la ou não; 3) a irreversibilidade – o que é publicado num jornal não pode ser depois “corrigido”, “autalizado” ou “deletado” como numa página da web.

É outra relação com a escrita. Prova disso é que recentemente um amigo meu, que publicou um texto aqui n’A Tribuna do Povo, pôs o mesmo conteúdo no seu blog, mas fez questão de também disponibilizar uma cópia digitalizada do impresso no jornal. Socializando, portanto, não só a idéia do texto, mas também o fato social simbólico de tê-la posto a público num jornal, esse veículo secular ainda tão atual. São signos simples, mas importantes, do valor da palavra impressa.

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