Espaço do Leitor
O fato da “banalização do mal” não é novo, nem a sua crítica constitui-se em um capítulo especial da ética do discurso ou da análise das distorções ideológicas
A expressão desse incômodo com a “banalização do mal” não aspira conclamar reformas na consciência crítica de ninguém, pois a todos cabe aprender a ler a realidade e enxergar suas contradições, conforme isso lhe convenha. Mas torna-se necessária para que não passe despercebida a hipocrisia com que ora se propaga tal mecanismo, como se divulgar repetidamente a maldade humana (sempre do outro, nunca nossa) fosse a mais pura e elevada manifestação de humanidade e indignação contra a injustiça. Como se reconhecer uma injustiça fosse algum mérito, ou suprema qualidade moral, e não apenas um dever comum a qualquer pessoa mentalmente sadia.
Trata-se assim de algo recorrente, mas que ultimamente tem se materializado com mais evidência no já insuportável tratamento midiático dado ao caso do assassinato da menina Isabella. Vejo que não deixa de ser também um crime, ainda que inimputável juridicamente, o que os meios de comunicação de massa, e não só eles, vêm fazendo com esse assunto. O crime de nos fazer começar a sentir como chata, enfadonha e desnecessária, essa narrativa sobre uma realidade que por natureza é tão triste e relevante, se tomada como exemplo de outras situações similares a evitar. A grande imprensa tem essa sórdida alquimia de transformar a tristeza, primeiro em espetáculo e logo em tédio e esquecimento. Nesse sentido o primeiro mecanismo perverso relativo à banalização que identifico é o da “capitalização midiática” do mal – é o que tem acontecido no caso dessa menina. A desgraça humana (além de filtrada por critérios de classe, pois casos assim acontecem bem mais que os divulgados quando se trata de classes ricas) é ainda convertida em dividendos pelo ganho de audiência que se tem em função do espetáculo, à moda de uma tragédia teatral, uma novela global ou um reality show.
A isso se articula um segundo mecanismo perverso que é o da “catarse de massas”, pois se a mídia consegue capitalizar o mal é porque alguém, não pouca gente, consome tal mercadoria. A vazão do desejo desse consumo assume a forma de uma catarse. Ou seja, há uma descarga emocional desejável nesse consumo do mal alheio, que reside justamente na ilusão de que, ao condenar o que é óbvio ser errado, haja para nós algum mérito moral. Sentimo-nos “bons” e “justos” ao proferir julgamento sobre males hediondos de criminosos, que de fato são, não nos demandando qualquer virtude adicional para julgá-los assim.
Isso, outro dia, me fez notar ainda um terceiro mecanismo perverso que chamo de “agenciamento político” da dor coletiva. Algo claramente manifesto numa fala de Lula se pronunciando sobre o caso da menina assassinada, dizendo o quão trágico ele é e quanto ele confia em certas autoridades para resolvê-lo. Ou seja, ao dizer aquilo com que todos concordam, aproveita para posar como aquele que canaliza o sentimento geral de um povo. E ao conferir crédito a certas autoridades, agencia ainda influências políticas. Tão oportunista quanto a grande imprensa e valendo-se dela.
Por último, um quarto mecanismo, muito similar ao usado por Lula, é o do “agenciamento retórico” da mesma dor coletiva, em textos de opinião. Não sem surpresa, deparei-me, no domingo, com um artigo publicado n’A Tribuna do Povo, dedicado ao tema da “Reforma Tributária”, mas que fez questão de iniciar sua prosa com uma menção ao tal assassinato, evocando uma “meiga Isabella". Mas qual a necessidade de se pronunciar sobre a personalidade da garota, fosse meiga ou rude? Em última análise, um crime é crime seja qual for a índole da vítima, não? São recursos alheios ao argumento. Contudo, não deixam de lhe trazer o benefício de tão somente falar o que todos gostariam de ouvir, mesmo que seja para defender uma idéia sobre outro tema que não tem nada a ver com o assunto do crime – forçando uma importação de simpatias coletivas de um tema para o outro.
São três ou quatro mecanismos perversos articulados que têm feito parte da estrutura de sustentação de uma clara banalização do mal, tornando enfadonho, chato, antipático, um tema que poderia ter nos feito refletir um pouco sobre o próprio mal que vivemos a perpetuar todos os dias, contra os mais jovens, contra nós mesmos, justo quando somos os primeiros a julgar e condenar os erros “do outro”.

1 comentários:
Sim, mais um exemplo de banalização, promovido pela grande e poderoza midia de massas. O que podemos fazer a respeito? qual a outra via? como eu e outros, poderemos esclarecer aos próximos a nós que o caminho não é a banalização, como não banalizar? Tantas questões que certamente estão ligadas a respostas simples mas distantes da sociedade atual: Amor, Honestidade, Ação, Comunicação. São verbos que exigem serem assumidos, não qualidades para serem " coladas" estéticamente. Do que se trata a vida? Uma coleta e acumulo de bens? Para que serve a linguagem de comunicação entre os seres humanos ? Seria para persuadir os outros? Podemos persuadir a quem não quer ouvir? Aqueles que querem ouvir o que podem fazer? Temos respostas para estas perguntas, creio que temos. Cada um de nós, podemos manifestar ações para trazer clareza, e modificações, claro que modificações " celulares" mas são importantes e possiveis de serem feitas e sentidas, desde que feitas com ações de amor, honestidade, comunicação clara, assim articulações com aqueles que querem ouvir serão vivenciadas e muitos serão beneficiados.
Postar um comentário