terça-feira, 8 de abril de 2008

O segredo da adolescência

A Tribuna do Povo, Umuarama, quarta-feira, 09 de abril de 2008
Espaço do Leitor

É importante o que dizem psicólogos e educadores sobre a adolescência, mas gostaria aqui de não me ater às falas deles. Quero apenas partilhar sentidos pessoais que esta palavra evoca em mim hoje... O jargão de que o adolescente “aborrece” tornou-se tão disseminado pela mídia e pelo senso comum que quase já se o toma como algo real. Contudo, o que haveria nesse momento da vida que poderia nos incomodar tanto? O fato de nos aborrecermos com as atitudes de adolescentes, vendo nelas o que já não toleramos em nós, não seria também sinal de fraquezas nossas? Ou será que justo no confronto com nossas fraquezas, nossos limites, também não podemos intuir uma força e uma virtude que preferimos não ter mais, pelo ônus que acarretariam? Sim, faço uma inversão proposital aqui. Ao invés de pensarmos a idade adulta só como a resolução dos conflitos adolescentes, por que também não a pensarmos como um recuo tático quanto ao que nesse período de nossas vidas estava tão pulsante? Recuo em relação ao que, ainda há pouco, era tão evidente e verdadeiro para nós. Pergunto, pois vejo características na adolescência que bem poderiam ser vistas como próprias a todo ser humano... Entretanto, num processo talvez “expiatório”, podemos preferir depositar no estereótipo social da adolescência tudo que tenha a ver, por exemplo, com “inflexibilidade”, “conflito” e “transição”. Como se na vida adulta só houvesse “flexibilidade”, “harmonia” e “porto seguro”. Mas também há muitos adultos inflexíveis, ou que passam por sérios conflitos e não encontram o repouso ou a estabilidade desejada, sempre em transição para algo que nem sabemos se chegará. Por a adolescência colocar em evidência, como numa lente de aumento, características tão humanas, presentes em todas as idades, penso que seja melhor observar o que há de virtuoso nesse momento de nossas vidas do que tomá-lo como sinônimo de algo falho e incompleto a ser apenas superado e deixado para trás. Virtudes como a coragem de por-se à prova, a necessidade de ter convicções e a altivez de formular projetos para o futuro. A coragem de pôr-se à prova se materializa no fato de que o adolescente se faz pioneiro, desbravador de novas terras, tanto as íntimas como a da sexualidade, quanto as públicas como a das responsabilidades que deve assumir, sabendo que ninguém o fará em seu lugar. O conflito se estabelece, receios habitam seu imaginário, mas ele enfrenta, tem coragem e põe-se à prova diante dos desafios. A necessidade de ter convicções se parece, para o adulto cético ou desiludido, com algo ingênuo e romântico, inflexível e intolerante. Porém, os desafios a serem enfrentados pela primeira vez, portanto mais difíceis e temíveis, demandam o surgimento de sérias convicções, de bravura na defesa das próprias opções, como vitais e insofismáveis. É assim com a religiosidade do adolescente, suas opções ideológicas, suas preferências estéticas, musicais, literárias, cinematográficas... Não se trata de que não esteja aberto a novas referências. Mas apenas de que possui, e busca ampliar, recursos para justificar suas preferências. Exige coerência, não se conforma com a indefinição, a indecisão. Opta por ser “frio” ou “quente”, rejeita o “morno”, não tolera o “em cima do muro”. É do grande arrebatamento ou da grande indiferença. O conjunto de suas referências muda, sua avaliação ao longo do tempo pode variar, pois se refaz, reaprende, recicla-se, mas, no que se pauta neste momento, quer coerência e a cobra dos demais. Por fim, a altivez de formular projetos para o futuro. Num mundo em que as perspectivas se estreitam, pois impera a ideologia da queda das utopias coletivas, da derrota dos projetos de transformação social de longo alcance, o ato de projetar um futuro melhor demanda cada vez mais energia e coragem. O Estado progressivamente vai se desresponsabilizando da saúde, da educação, da garantia dos direitos trabalhistas. A palavra “consumidor” é bem mais ouvida na mídia do que “cidadão”. A concorrência, o individualismo, imperam e um futuro melhor é algo incerto para todos. Ainda assim, o adolescente, à revelia da conjuntura desfavorável, faz projetos, quer ser médico, engenheiro, jornalista, cineasta, músico, ator, escritor, um dia pai, mãe, marido, esposa. Faz apostas no futuro, sonha em construir um mundo melhor para si, para os seus, mesmo sem nenhuma certeza de que isso possa ser conquistado. Não sem razão, isso pode gerar crises, como a tão incompreendida “crise da adolescência”... Não é de se espantar que na adolescência haja irritação, indignação ou mesmo lágrimas. Mas, como disse Belchior, contra os ditadores, estes não devem cantar “vitória muito cedo, não”, nem levar “flores para a cova do inimigo”, pois “as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo, podem fazer renascer o mal antigo”. O mal antigo para os dominantes, é a busca do bem para a humanidade, que nasce da indignação frente à incoerência de adultos acomodados, autoritários e demagogos, e revive a cada instante: no valor de por-se à prova, ter posição, e ainda ousar sonhar.

1 comentários:

Green Eyees disse...

Achilles, estou sempre aqui te lendo...não me canso de me apoiar em suas opiniões e pensamentos...vc é uma das pessoas mais lúcidas que conheço...e com uma produção intelectual de dar inveja a qualquer filosofo...

escreva...escreva...escreva...sempre!!

abraços.