sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Você não acredita no inconsciente?

A Tribuna do Povo, Umuarama, sábado, 31 de janeiro de 2009.
Espaço do Leitor.

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Em 25 de janeiro, publiquei aqui uma crítica ao dito falacioso “Freud explica”. Bastante difundido no senso comum e bem adequado à “caricatura do humorista”, à “má fé do ideólogo” e à “credulidade do ingênuo”. Dialogando com leitores sobre o tema, recordei-me de uma pergunta tão instigante quanto tal jargão: “você não acredita no inconsciente?”. Ela me foi feita, em sessão, em épocas diferentes, por duas psicoterapeutas das quais fui cliente, ora no serviço privado, ora no público. Digo ser inusitada a pergunta por o verbo “acreditar” estar geralmente reservado para: (a) algo mais elevado, objeto de fé e devoção – por exemplo: “você não acredita em Deus?”; ou (b) algo mais fictício, objeto de credulidade e superstição – como: “você não acredita em disco voador?”, “você não acredita em contos de fadas?”, “você não acredita em capitalismo justo?”. Por não supor ser o inconsciente uma divindade ou criação ficcional, nunca cogitei “acreditar” nele. Fosse um fato comprovado ou uma experiência concreta pessoal, eu poderia “conhecer” ou não. Sendo uma hipótese abstrata ou uma formulação teórica, poderia “concordar” ou não. Mas “acreditar” no inconsciente?

Por que falo disso? Porque, como apontei no outro texto, às vezes, a sociedade toma como verdade hipóteses dúbias ou imprecisas. Acata como objeto de fé mitos sobre a condição humana que têm valor como tais, mas que tomados por dogmas podem gerar imposturas na interpretação sobre o que seja nossa vida. Simplificando-a, banalizando-a, fechando-a em modos monológicos de conceber as relações sociais, suas possibilidades e limitações. Como dizendo que: “a origem de toda a subjetividade é a interdição cultural de uma energia originária, algures dita sexual”. Faço notar que um leitor crítico me sugeriu que tal “energia” deixou de ser chamada sexual, nos últimos escritos do mago de Viena. Mesmo que nenhum outro nome a ela se tenha dado, e ainda que muitos dos adeptos da causa freudiana insistam em manter a lenda dominante de toda “energia” psíquica ser sexual (libidinal). Em breve talvez se diga que nem de “energia” se trata, mas também de algo anônimo: uma função “ƒ”. Tornando tal discurso algo mais “algébrico”. E isso importa?

Só importa caso admitamos que eventos do cotidiano, como uma pergunta tola, tenham implicações na nossa visão geral sobre as coisas, como o entendimento sobre “quem somos nós”. E que reflexões gerais, como as psicológicas, tenham conseqüências para nossa vida, como quando uma ação terapêutica se guia por ela. Um desinformado, ao ouvir o clichê “Freud explica”, pode ter impressão de que nisto haja fundamento real ou prático, além da piada na roda de amigos. Ou pensar que a “explicação” do pensador valha para si. Se for curioso, pode perguntar: “mas de que modo explica, afinal?”. Assim, a quem tenha lido tal escritor cabe, ao menos, alertar sobre contradições implícitas, recriadas e ampliadas por muitos dos que o tentam seguir e divulgar. Note-se que a pergunta “Você não acredita no inconsciente?” não vem de pessoas que chamaríamos leigas, mas formadas em psicologia, que deveriam ter lido o próprio autor. O fato da pergunta se repetir, em tempos e espaços distintos, palavra por palavra, pode não ser “coincidência” e dar a desconfiar que em algum lugar se aprenda que inconsciente: “é algo que tem poderes especiais” (você acredita?); ou “é uma ficção” (você acredita?).

Primeiro a hipótese da “ficção”. Frente às críticas que fiz, um leitor contemporiza Freud dizendo que ele, no final da vida, já não sonhava fazer da psicanálise ciência, ficando ela mais como “arte”. Alguns de seus postulados seriam então por ele mesmo chamados de “mitos”, como o da “pulsão de morte”. Uma atitude mais honesta: destituir dos ditos psicanalíticos o status de “verdade científica” (explicação) e assumi-los como o que são: assertivas abstratas, metafóricas, míticas (especulação). Se tais mitos favorecem ou emperram a luta social pela emancipação humana, não porei em questão agora. A burguesia tem seus mitos, a classe trabalhadora tem os seus. Se “a religião é o ópio do povo” ou “o ópio é a religião do burguês”, não está em jogo aqui. Um mito vale para quem crê nele e assim funciona, tem sentido próprio, coerência interna, como ressalta o relativismo antropológico. Da lógica do leitor deduzimos que Freud, admitindo sua teoria ser feita de mitos: tira dela o peso de “explicação” – correlação causa e efeito; e confere valor tão legítimo quanto o da psicanálise a outras formas culturais de entendimento do real, tidas como míticas – como o xamanismo, o esoterismo, a astrologia, a quiromancia, as lendas populares, entre outros igualmente respeitáveis.

Tudo terá um só crivo: o mito é útil para uma prática que permita às pessoas superarem suas dores? Se for, não se poderá cobrar-lhe cientificidade, comprovação, criticidade ou concretude. Se a psicanálise é arte, como um quadro surrealista ou cubista, não precisa representar seu objeto com fidelidade. Somente lhe cabe produzir sentidos críveis com alguma condescendência ou encantamento. O reparo está feito: “não explica”, pois “nunca pretendeu explicar”. Logo não cabe crítica por fracassar na tentativa. Nesta lógica, o desejo e pronúncia de qualquer “explicação” fica por conta de “interpretações errôneas” ou de “ingenuidade do povo” que as ouve. “Freud jamais disse isso”, alegarão os devotos que não admitem que ele tenha cometido qualquer equívoco. Assim, a pergunta sobre “acreditar ou não” faz sentido agora como “você gosta desse tipo de arte?” ou “acredita nessas lendas e mitos?”. Fica mais clara a razão da questão das terapeutas e se afasta a necessidade de negar o “Freud explica” – ele apenas mitifica, confabula, romanceia. Essa é só a primeira hipótese para a pergunta sobre a crença no inconsciente. A segunda é a de se atribuir a essa entidade ficcional, metafórica, quiçá algébrica, algum poder divino.

Notamos que a “energia”, cujo nome no fim já não seria “libido”, cuja natureza já não seria sexual e, numa leitura mais permissiva, quiçá sequer se equipararia a nada do mundo físico conhecido, parece manter-se ainda assim “única” e mesmo onipresente, assumindo então um dos aspectos atribuídos à divindade. Contudo, não tenho notícia de Freud assumir isso publicamente. Na mística judaica também Deus era tratado de modo “algébrico” – como “Aquele que é”, aquele “cujo nome não pode ser pronunciado”. Um conceito que está no lugar da mais alta abstração, que não se pode representar por qualquer espécie de analogia, muito menos por ícones, imagens de qualquer na natureza. Sobretudo, nos textos antigos, “Aquele que é” se manifesta como voz: “Ouve, ó Israel”. Por nenhum outro sentido se lhe tem acesso senão pelo ato de ouvir. Ainda assim, fala por emissários, nunca em primeira pessoa. Ser algo que não se pode representar pela linguagem humana, é o que há de análogo entre “Aquele que é” e “Isto que está” – não se sabe se é energia nem qual, se for. Mas Freud, judeu freqüentador da sinagoga, como contam os biógrafos, chegaria a tal ponto? Assim, quando me perguntaram “você não acredita no inconsciente?”, que tipo de fé eu precisaria ter para crer no que ninguém sabe o que é?

Corrijam-me, mas há pistas de que as pessoas que fizeram a pergunta pautavam-se na crença de que o inconsciente “age sobre nossas vidas”, “nos conduz” – é o “animismo” que apontei no outro artigo, do cavalo que o cavaleiro não controla. Na fala daquela com quem mais convivi, orientando-me para certa atividade, ouvi: “Confie no inconsciente, ele dirá o que fazer”! Um “inconsciente” que orienta nossas ações. Dirão que é só “uma interpretação equivocada e absurda” dessa profissional, apesar de seus vários anos de convívio com a teoria. Contudo, se, na linha relativista, “acreditar” nos nossos mitos não é “equívoco”, mas coerência interna com nossas próprias referências, por que não pensar como ela? Além disso, a teoria não dá nenhuma base para se interpretar assim? Essa “força”, cujo nome ninguém sabe, essa incógnita tão poderosa que está em todo lugar, esse “x” barrado por uma cultura “c” na equação da origem de qualquer sujeito “s”, não parece mesmo tão onisciente, onipotente e onipresente? Os ditos críticos e esclarecidos, no interior do próprio freudismo, seguem se omitindo frente a esses equívocos, que não admitem ser da própria mitologia psicanalítica, mas são tão difundidos no senso comum e assumidos por profissionais desavisados. Enquanto isso, cabe a nós que lemos tais coisas nos mais diversos veículos, desde teses e livros a reportagens em revistas da grande imprensa, a tarefa difícil de devolver à população a pergunta tola: “e você, acredita nisso?”.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Freud também se equivoca

A Tribuna do Povo, Umuarama, domingo, 25 de janeiro de 2009.
Espaço do Leitor.

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Este não é um texto acadêmico, mas um convite ao diálogo crítico sobre um modo de pensar cristalizado que pode perpassar nosso cotidiano. Buscarei mostrar equívocos do fundador da psicanálise não para depreciá-lo, mas para indicar que todos somos sujeitos ao erro. Ao leitor peço que aponte os meus. De fato, repetiu-se tanto o jargão “Freud explica” que alguém pode até acreditar que seja verdade, sem ter notícia de “como” um homem nascido no século XIX deseja explicar a vida humana, nossas paixões e carências, em qualquer tempo ou espaço. Tal jargão, malgrado o esforço contrário de mentes mais críticas, evoca uma terceira palavra: “ele explica tudo”. “Explicar”, nessa insólita onisciência, é submeter todas as nossas ações, de um sonho noturno à defesa de uma tese doutoral, de um jogo de criança a um romance de Dostoievski, da caridade de Madre Teresa à violência de Hitler, a uma única causa universal: a sexualidade.

Tal modo de pensar adéqua-se bem a três modalidades de discurso: (a) a caricatura do humorista; (b) a má fé do ideólogo; e (c) a credulidade do ingênuo. Ao humorista porque ironiza e provoca o riso tratando o singular como universal e vice-versa, tomando o verdadeiro como improvável e o absurdo como plausível: é tudo sexo. Ao ideólogo porque sustenta verdades parciais como se fossem universais para perpetuar interesses particulares de sua classe social, escamoteando a complexidade do real e reduzindo todos os conflitos de um mundo injusto a uma só pseudo-explicação: é tudo sexo. Ao ingênuo porque, carente de referências mais sólidas que os clichês mais fáceis, que lhe exigem o mínimo esforço e permitem opinar sobre o maior número de assuntos, se tranqüiliza em repetir sem refletir: é tudo sexo. Ora, deve haver algum equívoco, uma “voz dúbia revestida em dogma”.

Cabe o alerta da lógica dialética de Hegel: “quando se diz que algo é tudo, esse algo é nada”. Se tudo em geral é sexualidade, nada é sexualidade em particular. Alegam psicanalistas que tal sexualidade onipresente não é a “genital”, ou seja, o modo adulto de manter relações sexuais. Pois o próprio ato do bebê sugar o seio de sua mãe é também considerado “sexualidade”, nessa teoria. No entanto, se em sã consciência todos sabem que não são a mesma coisa, por que se lhes dá o mesmo nome? A hipótese de Freud é baseada em noção bem imprecisa sobre “energia”. Segundo ele, todas as nossas ações, desde uma masturbação a um cálculo diferencial, desde um beijo no rosto à elaboração de um ataque por um estrategista, seriam manifestações econômicas (acúmulo e dispêndio) de uma mesma e única “energia psíquica” – chamada, em dado momento, de “libido”.

Diz ser uma só energia sexual. Seja bem canalizada ou mal. Atue por satisfação insana do “princípio do prazer” ou pressão castradora do “princípio da realidade”. Mova-se por impulso da “pulsão de morte” ou da “pulsão de vida”. Voltarei a questionar este último par. Mas marco já uma primeira crítica: toda a energia psíquica humana, nos mais diferentes exemplos é arbitrariamente nomeada como de natureza “sexual”. Vimos tratar-se de um “sexual” tão radicalmente distinto em cada caso, que não se entende como poderiam ser realidades designadas pelo mesmo nome. É semelhante a dizer “tudo é composto de átomos”, chamemos os átomos de “sexuais”, logo “tudo é sexual”. Em que isso nos ajuda a entender a singularidade da existência humana? Quem explica tudo, não explica nada. É um equívoco de ordem epistemológica, que se intensifica noutros, ontológicos: (1) ontologização da determinação inconsciente; (2) ontologização da tendência à morte; e (3) hipostasia da impotência humana. Há mais, mas tratemos destes, um por vez.

“Ontologizar” é “tomar processos ou movimentos de um ser como seres com existência própria”. É dito que a psicologia vigotskiana não ontologiza a consciência: ela não é um “ser” à parte. A consciência é o ser humano consciente, inseparável dele, sem autonomia “ontológica”. Isto parece não ocorrer com o inconsciente freudiano, tido não só como “existente”, mas até como apto a agir por conta própria. Senão me corrijam, mas alegorias do “mago de Viena” permitem ler assim. A consciência como “cavaleiro” tentando controlar um “cavalo” furioso e desgovernado: o inconsciente. Somos débeis diante do ser indomável ditando nosso destino. Apenas seguramos as rédeas para não tombar fatalmente. Mas então o cavalo controla? Se uma abelha pica o cavalo e o faz enfurecer-se, ela o domina? Se o vento a traz, é o determinante? Se frio e calor geram o vento... Qual será a causa primeira? No fim, haverá qualquer condutor? O equívoco é tomar o fato banal de controlarmos tão pouco como prova do “arbítrio” de um ser oculto, insaciável e caótico, chamado "inconsciente” – é um “animismo”, dar “vida própria” às funções mentais. Freud acerta ao lembrar o óbvio fato de sermos limitados, destronando a onipotência da razão consciente, mas erra elegendo um soberano oculto que tudo decide à revelia da razão. Cria algo como um “império dentro do império” o que, na análise de Espinosa, não existe.

Outra ontologização freudiana é a da “tendência à morte”. Estudar os efeitos psíquicos de “estarmos morrendo” é valioso para Freud e seu crítico Vigotski. Se “tudo que vive morre”, isso importa à psicologia. Mas, “mesmo a pergunta sendo pertinente, a resposta pode não ser satisfatória” – disse o crítico. A psicanálise supõe a “pulsão de morte” como primordial, crendo que toda energia tende a consumir-se. A “pulsão de vida” seria secundária, pois apenas luta, em vão, contra a morte. O conceito de energia em Freud é impreciso. Para a física, a quantidade de energia no universo é constante, sua tendência não é se “consumir” no sentido de “desaparecer”, mas “transformar-se”. O mito “energético” é frágil. Mais mítico é atribuir à morte “vida própria”, “poder de ação” e “superioridade” à vida, mera fuga à morte. Seria dizer: “O sol só brilha em luta contra seu destino de apagar-se”. Uma apologia ao poder do nada – um “niilismo”. Cavalgamos para lugar nenhum e a vida é rebeldia passageira contra o soberano supremo: a morte. Ela ordena e o cavalo conduz. Freud acerta ao lembrar o óbvio fato de que morreremos, mas erra em não ver sentido na vida que não só negação ao fim de tudo. A afirmação: amar, trabalhar, ter filhos, prosseguir, é mero solavanco no desespero de evitar a queda. Vai contra o dito filosófico de que “a vida se impõe”, sugerindo que ela só se submete.

Freud também hipostasia, eleva a estatuto ideal, nossa impotência. Se a morte “ganha vida”, a impotência “tem poder” de barrar nossa ação. Isso derivaria de nossa espécie ter dois sexos separados. Para procriar precisamos de outro ser, assim somos incompletos e impotentes por natureza. Nossa capacidade de nos unirmos e cooperar é signo de fracasso, não força. Nesta lógica, mais potente que o humano é a ameba: não precisa união para se reproduzir. Mas se potência é poder de realização, quem tem mais? Seres inferiores não têm neuroses, assim o homem seria o mais infeliz de todos, por ser pressionado e incapaz de atender o desejo do outro ou realizar o seu. O indivíduo é visto como radicalmente só e incomunicável – é o chamado “solipsismo”. Porém, há um ditado de que: “sem pressão não se formam diamantes”. O que seria mais potente, uma ameba “sem pressão” tornar-se duas, ou a vida humana com pressão converter “carvão em diamante”? Freud acerta ao lembrar o óbvio fato da incompletude na condição humana, mas erra ao ver na necessidade de compormos com semelhantes e diferentes só fragilidade e não potência. Vê na vida histórico-cultural mais um sintoma de fraqueza que um salto a novas formas de satisfação.

Escritor genial e médico virtuoso, Freud também se sujeita às suas hipóteses: nem sempre é consciente do que diz; nem sempre age em favor da vida; nem sempre é tão potente quanto desejaria. Mas, com assertivas dúbias passadas como dogma, inverte valores: a energia sexual particular é convertida em universal (pan-sexualismo); as funções mentais inanimadas são convertidas em vivas soberanas da ação humana (animismo); a morte que seria antes a ausência de vida e força é convertida em força com vida própria que tudo vence (niilismo); e a necessidade de nos unirmos ao diferente para dar continuidade à vida é convertida em apenas fonte de impotência e isolamento (solipsismo). À ostentação do dúbio como explicação infalível, chamei de equívoco. O conjunto deles forma uma teoria conservadora, auto-suficiente e muito seguida. Por suas origens e pelas prioridades do sistema social, seria equívoco nosso desejar outra coisa. Mas quem ainda nega haver tais equívocos terá também certeza absoluta de que “Freud explica”?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

"Perdoai as nossas ofensas"

A Tribuna do Povo, Umuarama, terça-feira, 13 de janeiro de 2009.
Espaço do Leitor.

De toda a orientação ética dada na oração maior da cristandade, deixada por Jesus, a passagem que mais desafia quem a leva a sério talvez seja: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Tentarei mostrar, neste breve artigo, que tal passagem desafia não só nossa disposição moral, em dizer a oração de coração e em verdade, como também a nossa hermenêutica, interpretação crítico-teológica, para bem compreender seus significados. Por que ela teria um conteúdo semântico, um significado, organizado de modo especial? Peço ao leitor discordante mais versado que me escreva e corrija-me, mas entendo tratar-se da única passagem, em todo o Pai Nosso, que é explicitamente “condicional”, senão “condicionada” a uma atitude prévia por parte de quem ora.

Sim, posso dizer “Santificado seja o vosso nome”, sussurrando mentalmente “assim como nós o santificamos em atos e palavras”, ou “Venha a nós o vosso Reino”, imaginando “assim como nós o construímos aqui na terra”. Por iniciativa nossa: captar o sentido geral e ver a oração não só como demanda a Deus, mas também como compromisso de concretizarmos cada palavra com atos cotidianos. Porém o texto literal não diz “assim como nós” nas demais passagens. Não há relação condicional prévia entre “o nome de Deus ser santificado universalmente” e “nós fazermos por santificá-lo, em particular”. Nem entre “o reino de Deus vir a nós, em toda a terra” e “nós sermos agentes pessoais na edificação dele”. Trata-se de pedido e imperativo universal: “que tudo que existe e vive santifique o nome de Deus”, “inclusive eu”; “que todas as forças do mundo invistam-se na construção do reino de Deus”, “inclusive as minhas”. Mas o “Perdoai-nos” é distinto. Não partimos do princípio: “Que as ofensas de todos sejam perdoadas por Deus, universalmente, inclusive as minhas”. A impressão clara de quem reza é de que deve primeiro perdoar os demais para então ser digno de obter perdão.

Nos outros casos há uma tomada de atitude particular “verbalmente implícita” e “logicamente condicionada” à prescrição universal: não se declara que primeiro eu santifique o nome de Deus, primeiro ajude na construção do seu reino, para que tais pedidos sejam feitos e concedidos, ou sim? Já no caso do perdão, ocorre o inverso, a tomada de atitude particular de quem ora é “verbalmente explícita” e “logicamente condicionante”, requisito, da prescrição universal. Isso nos inquieta: poderia algo particular (a atitude humana de perdoar) ser logicamente anterior a uma prescrição universal (o infinito perdão de Deus)? Entende-se que as virtudes de Deus sejam superiores às nossas, então pedir que Ele perdoe “assim como nós perdoamos” gera tensão hermenêutica, pois mais devemos buscar seguir atributos de Deus, do que Deus agir assim como nós, imperfeitos por definição. Logo, a oração não diz que Deus só perdoará na exata medida que o homem é capaz de perdoar – o que contradiria a essência da divindade. Como nessa área não cabe contradição, o significado deve ser mais elevado. Para alcançá-lo sou limitado e o leitor pode ajudar.

Tentando elevar à universalidade o pedido pessoal, veríamos no plural “Perdoai-nos” um índice dos erros de uma coletividade, uma nação ou, no limite, toda humanidade. Mas dizendo “assim como nós”, na voz de um “eu”, surge um desafio: um só não pode assumir as atitudes de todos, se busca um perdão que dê paz imediata para reiniciar visando não reincidir. Poderia tal paz vir no presente pela certeza de perdão só no futuro? Pela esperança em milênios vindouros, dos quais somos pré-história e nos quais “o mundo já não será mundo e sim algo melhor”? Se “nós” formos “toda a humanidade”, devendo todos perdoar para sermos perdoados, nosso altruísmo, dedicação e paciência não deverão também aumentar? Seria um desafio. Mas a maioria de nós não faz suas orações assim. O perdão pedido não é sempre para os erros de toda a gente. O “nós” é mais uma forma literária de dizer “eu” do que um compromisso social planetário. Assim, após esta tentativa, a busca por sentidos mais elevados continua.

Seguindo para além do pé da letra da oração, busquemos amparo na interpretação mais geral. Na tradição cristã, o tema dos erros humanos e sua redenção se liga à discussão teológica relativa à morte de Cristo, como símbolo de imolação que redime as culpas históricas da humanidade. Nessa visão da relação homem-divindade, uma “nova aliança” se firma como ética distinta e inédita. Na sua dimensão temporal ela é nomeada como “Tempo da Graça” que incorpora, supera e sucede o “Tempo da Lei” – lembrando um teólogo amigo meu. Nesse tempo novo, já não impera a letra da antiga lei, pois “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2, 27). Então, julgar nossos erros pede sensibilidade e entendimento não legalista, ao definirmos “ofensas”. Cabe ponderar, pois há novos conceitos de condenação e salvação, mas ainda nos apegamos a regras arcaicas. Mesmo assim, erramos – seja por não seguir a lei ou por não estar na graça. Para o cristão, só o exemplo de Cristo é saída para nossa fatal tendência ao erro. Agostinho resume indicando que “não amar” é o único erro: “Àquele que ama, tudo é permitido”. Quem ama, a Deus sobre tudo e ao próximo como a si, não quebrará mandamento algum. Mas, mesmo quem ama e segue seus ritos religiosos, não o faz sempre e não se livra em definitivo de ofender ao semelhante, a si próprio, a Deus. Por ser inevitável errar, por nem sempre o amor ser a lei maior, não escaparemos: teremos que pedir perdão. Do geral voltamos ao particular.

Na particularidade da vida concreta, na qual sempre erramos, torna-se tenso pedir perdão, pois arriscamos vir a repetir o mesmo expediente em breve. Há um ditado: “errar é humano, persistir no erro é burrice”. Se tomarmos “erro” como “ofensa”, poderia ser: “errar é humano, persistir no erro é maldade”. O primeiro tem conotação cognitiva (falta de inteligência), o segundo tem conotação ética (falta de caráter), ambas são humanas, até demais. Sucessivas retratações para um erro recorrente rebaixam nossa estima e credibilidade frente ao outro e a nós próprios, mesmo que ninguém seja irrecuperável. Pode-se até dizer: “Se erro contigo e, em verdade, me perdoares, a dívida não acumulará”. Mas, alguém é tão amoroso ao ponto de não recobrar a violência antes sofrida que retorna por mãos do mesmo agressor?

Só a divindade seria diferente, pois Deus, primeira pessoa, nunca será ferido por qualquer agressor, não ficará magoado ou ressentido por dor de agressão sofrida. É na segunda pessoa, o Filho, que se pode cogitar tal provação, por unir condição humana e divina em paixão incomparável. O perdão do Pai, invulnerável, difere do humano, vulnerável. Pedimos perdão por antes ofender o próximo, imagem e semelhança d’Ele. Agredindo ou omitindo, machucamos nossos semelhantes, não Deus - cuja integridade de atributos é inabalável, sua fortaleza é inexpugnável. Já o Verbo feito carne se feriu e sangrou, para sobrepujar a morte. Deus só é molestado e chora no corpo de um ser humano. Nas duas pessoas, o perdão divino é infinitamente superior, não só por Deus não ter mágoa de golpes tomados, mas por apiedar-se dos proferidos contra todo gênero humano, cuja vivência seu próprio filho encarna e eleva à potência mais alta. Por isso é erro tomar o “assim como nós” ao pé da letra. Obviamente, quem deve aprender a perdoar e pedir perdão é o homem, jamais Deus. Ferimos o outro, precisamos pedir perdão. Ferem a nós, precisamos perdoar. O “dente por dente, olho por olho” é superado. Pedindo e concedendo perdão, libertamo-nos.

Não por ser fácil. O pedido envolve dores indesejáveis: arrependimento e culpa. Na ideologia capitalista de sucesso individual a todo custo, dizemos: “não me arrependo de nada”, “podendo faria tudo de novo”. Arrepender-se é admitir tempo perdido, e não gostamos. A mesma ideologia critica a noção ocidental de culpa que “escraviza”. Mas a psicanálise ensina que um homem sem culpa alguma não preserva sanidade mental. Pedir sinceramente perdão envolve não ser o centro do mundo (ideologia de só levar vantagem) e não padecer de mal psíquico (patologia de tratar os outros como coisas). Sendo difícil e necessário, temos por fim duas leituras para “assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Uma seria pedir também “ensina-nos a perdoar assim como vós nos perdoais” (foco no modelo superior). Outra seria junto meditar: “perdoai as nossas ofensas só quando todos perdoarmos aos que nos têm ofendido” (foco no tempo futuro). É difícil até resumir, mas convido o leitor a ampliar. E, pela inaptidão em contemplar o tão vasto no mais breve, peço perdão.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Orgulha-se de sua impaciência?

A Tribuna do Povo, Umuarama, terça-feira, 06 de janeiro de 2009.
Espaço do Leitor.

Até há pouco tempo seria tomada como segura a noção de que a paciência é uma virtude e a impaciência um vício. Mas recentemente numa cena cotidiana, corriqueira, comecei a tomar consciência de já haver quem coloque a impaciência também quase como motivo de orgulho. “Não tenho paciência para ler tal autor” – disse alguém numa roda de conversa, em tom de resolução. Para meu argumento aqui diante disso, não importa que tal autor fosse um dos maiores nomes das ciências humanas no século XX. Pois é justo que nem sempre tenhamos necessidade de leituras mais profundas, tampouco desejo de aprender conceitos relativos a problemas bem mais difíceis que os encontrados em nosso trabalho e vivência rotineiros, dos quais bem damos conta com as estruturas cognitivas que já atingimos. Certamente, não é necessário que eu aprenda a física de Einstein, sequer a de Newton, para andar de bicicleta. Do mesmo modo, eu não precisaria iniciar-me à estética da criação verbal de Bakhtin, sequer a de Aristóteles, para escrever este artigo de opinião. Se fosse para conduzir um ônibus espacial ou produzir apreciações das mais elevadas sobre a linguagem
humana...

Mas o que me tocou naquela sincera e resoluta negação à leitura não foi o fato legítimo da pessoa não ter qualquer necessidade daquilo que o autor oferece à sociedade, mas a atitude que, no subtexto e pelo tom, tendia a diminuir aquilo ou aquele com quem ela dizia não ter “paciência”. Caso eu proceda assim, seja com o que for, marcarei estar em tela de juízo o objeto da minha “impaciência” e não a inadequação de meu próprio sentimento. Ele não aparecerá como falha minha, ao contrário, quase falarei dele como se fosse uma virtude, algo que demonstraria certa autoridade em mim, afinal “o outro não é digno de minha criteriosa paciência”. No campo dos sentidos desse simples “não tenho paciência para ler”, podem situar-se juízos de valor como: “esse tipo de texto me tira a paciência”; “é uma leitura que me irrita, me impacienta”. Se eu me colocar assim, em qualquer situação, não falarei apenas sobre algo de que “não necessito”, tampouco algo que “está além da minha compreensão” ou que “visa objetivos mais ambiciosos que os meus”. Ao contrário, poderei estar pondo em jogo a idéia de que seja tão somente algo sem valor, desprezível, indigno de minha paciência...

Se tomo iniciativa de escrever sobre esse tema, partindo de exemplo aparentemente tão insignificante, é porque noto que se trata de um indício de algo mais profundo na cultura contemporânea. Atitudes de “impaciência” como a que me referi não se apresentam apenas quanto ao que se refere a gostos, interesses ou necessidades por determinados tipos de gêneros literários, sejam eles filosóficos, científicos ou ficcionais, busquem eles dizer o mais verdadeiro sobre a realidade humana ou apenas vender idéias, serviços ou produtos. Tampouco a questão se reduz aos gostos estéticos, ou preferências políticas, esportivas, religiosas ou acadêmicas. Os limites de nossa paciência, na sociedade contemporânea vão progressivamente se reduzindo para tudo quanto o que não seja criado à nossa imagem e semelhança, para tudo quanto não atenda nossos interesses imediatos e não nos traga algum tipo de benefício individual direto ou “vantagem” sobre nossos semelhantes.

Tudo o quanto é traço de distinção e diferenciação entre pessoas está potencialmente sujeito a tornar-se alvo da dita “impaciência”. Assim, a ela pode associar-se a intolerância, por vezes o desdém e, no extremo, até o preconceito e a violência simbólica. Desse modo, inquietando-me com aquela fala tão irrefletida, talvez nisso até ingênua, notei que algo me convidava a pensar em minhas próprias impaciências. Que são tão numerosas. Ter paciência é uma virtude que exige de nós muito esforço e desprendimento, se ela for tomada no sentido de determo-nos com atenção e dedicação mesmo por sobre aquilo que nos é adverso e nos causa estranheza e insatisfação. Tem se tornado raro tomarmos tal atitude sem fecharmos o caso em algum estereótipo ou clichê – caricaturando o outro para mais facilmente dispensá-lo; ou sem nos afastarmos de dar qualquer resposta, na atitude típica do “cínico” – omitindo-nos de pronunciar nossa posição, negando-nos ao diálogo, não vendo o interlocutor como capaz de compreender-nos.

Devo admitir, sem me orgulhar, que não tenho paciência com quem diz não ter “paciência” com algo cuja grandeza não consegue alcançar, em cuja profundidade não tem fôlego para mergulhar. Não me orgulho, porque o defeito é meu: faltam-me recursos dialógicos para amparar um parto que traga à luz o amor de outrem pela sabedoria. Do mesmo modo, também não tenho paciência: com a ideologia de que o caminho do capitalismo neoliberal seja o mais apto a promover o bem estar da humanidade; com a retórica mentirosa dos políticos de carreira de qualquer sigla; com a linha editorial pequeno-burguesa de revistas de grande circulação como a “Veja”; com a vulgarização e distorção de temas ditos científicos em outras como a “Super interessante”; com a linguagem ladina dos informes publicitários, em seus mais variados formatos; e até com os spams na caixa postal do meu correio eletrônico; não tenho paciência comigo mesmo por eu ser assim tão impaciente com o que mais há no mundo. Minha impaciência, indignação e insatisfação vão do mais amplo e abstrato ao mais restrito e insignificante, frente ao outro ou frente a mim.

Por fim, sou impaciente para com coisas e linguagens totalmente descartáveis, superficiais e inúteis para a edificação de uma humanidade melhor. Não pela inutilidade em si (tantas coisas “inúteis” e gratuitas nos podem ser tão agradáveis), mas sim por se avolumarem sobre nós todos os dias, ou toda a semana, por diferentes veículos, como se fossem os bens mais essenciais para nossa vida e realização pessoal – desde pacotes de serviços bancários a “caminhos para a salvação eterna” nos vêm querer vender, diariamente. Impaciência para com o lixo propagado como artigo de primeira necessidade para a experiência humana e a vida social. Com essa minha intransigência, eu poderia até repetir Raul Seixas quando diz “Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”... E assim também você leitor poderia dizer o mesmo quanto ao que escrevo aqui. Desse modo, os exemplos podem multiplicar-se, e haverá tanto com o que nos impacientarmos, incomodarmo-nos, quanto houver realidades que não sejam espelho fiel de nossas preferências. Iremos nos incomodar até com aquilo com o que nem necessitamos ter contato. Mesmo com o que de nós não cobra qualquer audiência, muito menos algo chamado “paciência”...

Daí minha necessidade de reflexão. Para que perder a paciência com o que, em absoluto, não me diz respeito? Acaso a pessoa que citei no início é obrigada por alguém a ler livros do tal autor? Acaso a leitura das revistas de que não gosto me é exigida como dever escolar, ou tarefa de trabalho? Recai sobre nós, nesses casos, alguma lei que nos cobre “paciência”? De onde derivaria em nós a necessidade de declarar aos outros as referências de que não gostamos? Por que elas nos incomodam? Será que não temos paciência só com as referências ou também com quem as aprecia? Precisamos fazer questão de dizer, diante de quem gosta do que reprovamos, que para aquilo “não tenho paciência”? É um expediente triste, amargurado. Mas todos o usamos, o tempo todo. Como disse o já citado estudioso russo da estética da criação verbal: “todo enunciado envolve um juízo de valor”, estejamos conscientes disso ou não. Ademais, nem todo juízo é condenatório ou depreciativo.

Mas o valor mais importante aqui e agora, não é a paciência entendida só como atitude negativa, de pura resignação e subordinação, pela qual apenas suportamos aquilo de que não gostamos, para obter um benefício final. Não tal paciência, a qual muitos precisamos ter, por exemplo, com o ato de ir trabalhar todo o dia, para obter nosso merecido sustento. Não uma paciência assim, com a qual faríamos a alguém uma sorte de favor por ouvir-lhe ou tolerar-lhe. Mas outro valor, mais afirmativo: o da paciência como dedicação empática e solidária, do respeito para com os gostos dos outros, mesmo tão diversos dos nossos. O cuidado de não emitir julgamentos bons ou ruins a não ser que se façam socialmente necessários, isto é quando o enunciado de outrem nos solicita réplica, posicionamento ético. Uma réplica socialmente necessária, nesse momento, seria a que trouxesse um convite a repensar nosso hábito já milenar de “achar feio o que não é espelho”... Mas para que tal convite seja feito e atendido, precisamos ainda boa dose da rara afirmativa e ativa paciência.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O paradoxo da filosofia banalizante

A Tribuna do Povo, Umuarama, sexta-feira, 07 de novembro de 2008.
Espaço do Leitor.

[versão em pdf]

Parece incrível que a filosofia, cuja função primeira sempre foi lançar um olhar de estranhamento e admiração àquilo que a repetição nos fez passar a ver como banal, num malabarismo midiático, possa prestar-se à prática inversa: banalizar temas sutis, complexos, polimorfos, de difícil compreensão. Mas isso acontece, como no blog de um professor de São Paulo, Paulo Ghiraldelli Junior, em seu texto “Depressão e Filosofia”, de 29 de outubro de 2008. Ali vemos definições indiscriminadas e preconceituosas para o que se diz serem “os depressivos”. Esse autor, em nome da filosofia, que poderia desarticular dispositivos simbólicos do preconceito, mais os hipostasiou, deu a eles estatuto de existência concreta – recurso discursivo mais adequado à alienação que ao esclarecimento. Ele inicia dizendo:

“O que pode fazer você feliz? Você sabe o que é ser feliz? Algumas pessoas sabem, mas muitas não sabem, mesmo tendo tudo para não se preocuparem. Estas últimas são os chamados genericamente de “depressivos”. Tudo pode dar certo na vida dessas pessoas, mas elas não conseguem curtir o êxito, elas estão sempre “de baixo astral”.”

“Depressivo”, até aqui corretamente entre aspas, não poderia ser alguém com depressão, como mal ao qual nos cabe ajudar, senão a curar, ao menos a minimizar com recursos sociais disponíveis para promoção de saúde. Parece falar-se de algo diverso. Chama-se de “depressivo” alguém que por vontade ignora o que é ser feliz, mesmo já sendo! Sua vida é perfeita e não consegue ou, pior, “não quer” admitir... Alguém sem preocupação que, por capricho, simula um “baixo astral” para com isso ganhar mais benefícios do que já tem, mesmo tendo tudo. Alguém muito ambicioso, deduz-se. O autor pinta tal quadro surreal. Retrata um “mentiroso” com o gosto excêntrico de dizer não estar bem, ainda que com tudo maravilhoso, mesmo num mundo em que o status de “levar vantagem” é tão cultivado. Conhecemos tantas pessoas com descrição tão curiosa? A elas nomearíamos “depressivas”? A todos os nossos conhecidos que sofrem com depressão atribuiríamos tais características tão pitorescas?

Talvez ele não falasse de depressão, e usasse a palavra só por falta de conhecimento crítico de seus significados. Poderia ser uma “metáfora” – já que usa “aspas”. Antes fosse, embora saibamos, desde a filosofia da linguagem de Bakhtin, que a eleição de uma palavra não é aleatória e envolve compromisso ético de quem enuncia, marcando ainda uma posição de classe na arena de lutas do signo. Mas quem lê até o final vê a reposição dos preconceitos, em tom sarcástico, apelativo, mal dirigido, atacando um interlocutor indefinido e abstrato, sem levar em conta uma audiência social concreta, historicamente situada, como a de pessoas que de fato enfrentam a depressão e não coincidem com a ficção caricata criada pela mente do autor. Dispensando possíveis alianças dialógicas, ele omite a polissemia, contradições e nuances do tema, torna-o unidimensional, monológico:

“Mas, não se esqueçam: a depressão crônica faz de você aquele que adora ser cuidado, então, quando algo pode tirar você da infelicidade, isso, não raro, pode lhe meter medo. E sabemos bem esta verdade: não são poucos os depressivos que diante da possibilidade de uma cura rápida preferem nem ouvir falar nisso. Ficar feliz é tudo que não querem, pois a infelicidade já teria se transformado em uma propriedade querida, um bem, uma vocação. E ninguém quer perder um bem ou uma vocação. Tirar a depressão de um deprimido crônico pode significar para ele devolver-lhe a liberdade, e uma boa parte de nós teme a liberdade.”

As aspas caem no final e não é que “mude de posição” para uma “mais literal” que a anterior, só repete mais intensamente o preconceito já posto, no qual as pessoas com depressão não sofrem qualquer mal que lhes tire a saúde, que lhes impeça de viver bem. Ao contrário, apresenta a hipótese de que o “deprimido” é um infeliz voluntário e interesseiro que só se beneficia do mal que diz acometê-lo. Um mal que sequer existiria, pela retórica estrategicamente áspera de Ghiraldelli. Marca-se uma versão relativista da dor humana, tomada como pura superestrutura simbólica acrescida, no suposto caso, de alta dose de perversão ou má fé, sobre as quais recai o juízo moral do autor: “pessoas depressivas têm medo da liberdade”. Juízo moral, pois supõe que ser livre é possível nesta sociedade, só não é quem tem má vontade. O medo, ademais, só pode estar aí como vício e fraqueza, jamais força ou virtude, sequer contingência ou defesa, portanto se o condena. Em suma, nesta versão: “depressão não existe”, é só um capricho de quem “diz” tê-la. Como o de um político ou intelectual que diz haver “liberdade” e “democracia” para se favorecer da ilusão que isso cria, mesmo que elas inexistam aqui.

Tanto é dúbia a liberdade da qual o autor diz ter medo o “depressivo”, que minha crítica enviada ao seu texto não foi publicada, o convite ao diálogo rejeitado e o exercício da liberdade impedido por quem acusa outros de temê-la. Trata-se ali de filosofia sem diálogo, algo que sequer na Grécia aristocrática com sua “democracia” para apenas 10% da população, se concebia. Já um comentário de Thiago Leite Ribeiro, imitando a retórica simplista do texto, foi bem aceito. Este repôs, sem crítica, a noção de o “depressivo” só não sair de sua condição por “gostar dela”... Mas se o “depressivo” não gosta de ouvir o que contrarie sua “falsa crença de que sofre”, também o moderador do blog não gosta de ouvir contestação, censurando, silenciando, apagando o diferente. O “gostar” do “depressivo” é posto tacitamente como moralmente inferior ao “gostar” do moderador, que condena um vício no outro, mas não o mesmo vício em si: permanecer no mesmo lugar. Nisso o conteúdo moralista de “Depressão e Filosofia”: a culpabilização individual da doença. Abstraem-se suas causas psicossociais, ignoram-se seus componentes genético-moleculares complexos e nem se cogita a dinâmica da integração dialética desses determinantes, como é típico da ideologia liberal pequeno-burguesa mais conservadora: “quem sofre é o único culpado por sua dor”, “cada um tem o sofrimento que merece”.

A mimese de Ribeiro ainda equipara depressão e tristeza - algo bem freqüente no senso comum. Mas sabe-se: “depressão não é o contrário de alegria, é o contrário de disposição”. Depressão não é o mesmo que tristeza. Alguém pode estar triste e ainda manter disposição para suas atividades, mesmo carecendo de sentido em dado momento, por algum motivo. Daí a dificuldade de quem ignora o quadro em conceber que alguém profundamente indisposto e apático não tenha ânimo para sair da situação por si, o que seria paradoxal. Ou nos omitimos e aguardamos que a indisposição recue – com o tempo, como que por um ciclo biológico, uma maré. Ou algo se faz para intervir -– com a medicina, psicologia ou a filosofia com seus phármakons. Com alguma solidariedade. Sair da depressão profunda por si próprio seria como uma aventura do Barão de Münchausen. Mas estar preso é cômodo? À falta de apetite? Às dores no corpo? À ausência de libido? À insônia? Ao vazio? À ideação suicida? Ao auto e hétero moralismo recorrentes? Aos efeitos adversos dos remédios? É cômodo? É gostoso? O sincretismo aplicado por Paulo e Thiago, seu uso indiscriminado de palavras que cobrem situações bem diferentes e até antagônicas, não contribui para um pensamento crítico. Quem é esse “depressivo” de que se fala? O que realmente se está chamando de “depressivo”, como se isso se aplicasse a tudo que está sob tal signo? Os pretensos críticos aqui só corroboram preconceitos muitíssimo enraizados no senso comum, no conservadorismo, aos quais antes caberia à consciência filosófica superar.

É de admirar que leitores de um blog tão consultado, diante da gravidade da situação, não se manifestem contra ela. Contudo, sabendo que as posições divergentes não são ali publicadas, não havendo liberdade de expressão, a admiração se dissolve. Ali não há o que admirar. Justo num campo em que antes deveríamos aprender a nos admirar com o mundo tido como banal, acabase por banalizar o que poderia ser objeto de admiração e reflexão crítica: a dor humana e a luta do homem contra ela, suas contradições, seu sucumbir, suas esperanças e aspirações. Se pessoas que realmente sofrem com a depressão e lutam contra ela podem sim cultivar ou manter uma vontade de alegria espinosiana, de compor mais com o mundo, de estabelecer alianças com os outros em busca de um bem comum, mesmo que no contraponto e na adversidade, não será por conta das colocações infelizes, tristonhas, de tal “filosofia” banalizante, mas apesar dela e justamente contra ela.

sábado, 4 de outubro de 2008

Seu candidato conhece você?

A Tribuna do Povo, Umuarama, sábado, 04 de outubro de 2008.
Espaço do Leitor

“Você conhece o seu candidato?” – é o que gostam muito de perguntar publicitários que enriquecem graças à desinformação geral; candidatos afoitos por cooptar novos eleitores; e pseudointelectuais que insistem em ter “consciência social” mesmo que só de quatro em quatro anos. Mas por que ninguém pergunta: “o candidato que quer, a todo custo, o seu voto, conhece você?”. Ele sabe o seu nome? Ele sabe da sua história? Ele sabe em que você trabalha? Ele conhece a sua família, suas vivências, suas virtudes, suas dores, suas dificuldades? Ele conhece a rua em que você mora, seu bairro? Conhece realmente a fundo a cidade em que você mora, os locais dele pelos quais você passa? Conhece a geopolítica do estado a que sua cidade pertence? Conhece a realidade do país, e as relações internacionais que a determinam?

Ora, se ele lhe conhecesse bem, se participasse da sua vida, se estivesse inserido na realidade social da qual você participa, junto com mais tantas pessoas como você, já não saberia quem ele é? Saberia. Mas então porque ele tem que fazer propaganda de que você deve conhecê-lo? Porque ele não conhece você. Mas ele quer que você, que trabalha o dia todo, chega em casa cansado, toma banho, mal se alimenta e já deve estar na cama para se recuperar para o outro dia, que não tem tempo para ler esse jornal, seja obrigado a saber quem ele é. Mas ele que é dispensado do trabalho para fazer campanha, ele que é grande proprietário de meios de produção, ele que é profissional liberal de grande influência e atende centenas de pessoas e ganha muito bem por isso, não tem obrigação de saber que em é você? Não é justamente ele que irá governar em teu nome, como você, por você e para você? Para atender as tuas necessidades? As necessidades de todos que têm as mesmas dificuldades que você?

Se ele conhecesse você, não precisaria dizer “conheça meu passado”; “conheça minhas propostas”. O passado dele teria sido partilhado com o seu, as propostas dele seriam reflexo das práticas sociais dele que você já conhece. Mas não: “ele é tão bom, só que ninguém sabe ainda”. Então, nas eleições é momento para ele contratar um publicitário, pagar desempregados para distribuir santinhos e segurar bandeiras coloridas em esquinas movimentadas, pegar licença de seu emprego, caso ele tenha um, para ir fazer campanha e então, finalmente, dar ao mundo “a boa notícia” sobre o quanto ele é “necessário”. Dizer-nos sobre quanto nós temos que conhecer o passado dele e comparar com o dos outros, que ele já investigou com sua equipe para destacar apenas os defeitos, seja reais ou só proclamados. então, nesse momento, nos será exigido tornarmo-nos historiadores ou detetives para pesquisar a vida de cada candidato e saber quais seriam os melhores representantes nossos, os mandatários aos quais daremos aval para governar em nome dos interesses deles e suas corporações.

Vivem publicitários, candidatos e pseudo-intelectuais repetindo: “o eleitor não conhece os políticos”. Realmente: se de fato os conhecêssemos, soubéssemos mesmo quem são, talvez já estivéssemos produzindo, em outros espaços mais legítimos, menos artificiais e formais da vida pública que as urnas, no nosso trabalho e cotidiano, formas mais substanciais de enfrentamento a tudo que eles representam e perpetuam, com o aval do manipulável voto. Contudo, quem tem espaço nas mídias ou relações de influência, para propor um conceito de política mais substancial e participativo, não o faz. Ficamos presos a uma dupla e perversa retórica: (1) na época de eleições, “gostem de política, participem, conheçam seu candidato, votem, façam campanha, ouçam propostas”; (2) na época da gestão “deixem o homem trabalhar, votou nele não pode reclamar, votou no outro obedeça a vontade da maioria, não votou em ninguém não venha criticar”. Ou seja, toda a democracia se reduz ao simples, coagido, obrigatório, gesto de escolher entre o ruim e o tão ruim quanto. Feito esse gesto, ninguém mais lhe pedirá para conhecer nada, saber do que se passa, alfabetizar” politicamente ninguém. A política é vista e mostrada por candidatos e seus marketeiros como ação de profissionais de gabinete, com autorização pública para defender projetos e interesses da minoria a que pertencem. Eles não nos conhecem. Como podemos conhecê-los?

Um candidato a vereador chegou para mim em certa oportunidade e disse-me “Você já tem candidato? Meu número é tal, meu nome é tal, sou candidato”. Menos de uma semana depois o mesmo candidato veio a mim e perguntou exatamente o mesmo. Então eu lhe respondi apenas: “você é fulano e seu número é tal”. E ele se espantou, não entendendo como eu poderia saber. Numa terceira oportunidade a cena se repetiu. Depois disso, ele segue passando por mim como se nunca tivesse me visto na vida. Problemas de amnésia à parte, isso soa como certo descaso para com o eleitor. O eleitor é um anônimo, um nada, nem número temos, nem o nome nos é perguntado, não se quer saber em que trabalhamos, quais as dificuldades que enfrentamos, nossa realidade, nada. Apenas repita comigo “o número é tal e tal, o nome é tal”!

Algo interessante aconteceu-me também com outro candidato, que me sugeriu, e a mais dois colegas, escrever sobre o “Analfabeto político” de Brecht, talvez pensando que o dramaturgo alemão confundisse “política” com “votação”. Queria ele saber se eu “sabia quem era Brecht”, se já tinha ouvido falar. Ao respondê-lo não muito me ouviu, pois a expectativa dele era a de que eu desconhecesse a obra do autor de “Galileu”, e das “Perguntas de um operário que lê” – as quais, por acaso, eu já havia citado nesse mesmo espaço do leitor. Mas não parou por aí. Ao defender o quanto era essencial eleger-se para poder fazer algo de bom pela sociedade, o que de outro modo entendia ele ser incapaz de fazer, chegou a dizer, “se você não se elege, você é apenas um cidadão, você tem que estar lá para fazer a diferença”. Ora, eis como todos nós somos vistos por eles: “apenas cidadãos”.

Não seria o contrário? Não seriam eles sim apenas representantes do cidadão? Não é o cidadão coletivamente quem determina as direções da vida social e seus representantes que fazem valer a sua vontade? Não seria a isso que chamávamos antes de “democracia”? Não, para eles “o cidadão não é ninguém”, não tem número, seu nome não precisa ser perguntado, nem lembrado, sua história não precisa ser conhecida... Portanto, antes de nos exasperarmos por saber quem são os candidatos, respondamos para nós mesmos: Qual deles sabe quem nós somos? Qual deles sabe a que classe social pertencemos? Qual sabe quais os projetos de transformação social pelos quais nossa classe vem lutando ao longo de nossa história? Qual deles sabe de nossas experiências comunitárias, de nossa organização de base, de nossos movimentos, de nossas lutas? Qual deles nos veio perguntar? Qual deles, ao estar apto a conhecer de nós, pode então realmente fazer-nos conhecer sua prática social e seu compromisso para com a humanidade?

Qualquer um já diz, com boas ou más intenções “conheça seu candidato”, pois digamos também aos candidatos “conheçam os seus eleitores”... Mas não o queiram fazer somente no momento em que nos vêm pedir voto ou mandar votar. Que aprendam quem somos convivendo conosco, no trabalho, na comunidade, nos bairros, nas praças, no mercado, nas escolas, nas bibliotecas, nos asilos, nos hospitais, nos postos de saúde, nas lutas de cada dia, que constituem a arena real da vida política, no sentido mais substancial e radical do termo, o qual no tempo triste de eleições se despreza e se esquece.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mas quem é o analfabeto político?

A Tribuna do Povo, Umuarama, quarta-feira, 01 de outubro de 2008.
Coluna "Qual é a sua?"
Por: Paulo Cezar de Souza, Luiz Alexandre Costa e Achilles Delari Junior

O Analfabeto Político

Bertolt Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem

participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe o custo de vida, o preço
do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel,
do sapato e do remédio dependem
das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito dizendo
que odeia a política. Não sabe o imbecil
que, da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais
e multinacionais.


Bertolt Brecht é um dos mais destacados dramaturgos alemães de orientação marxista de todos os tempos. Sua arte está diretamente ligada às propostas socialistas de transformação social revolucionária e estabelecimento de uma nova ordem, na qual a expropriação de uma classe por outra deixe de existir. Um projeto que teve seu momento sobre o planeta, realizou-se apenas em parte, e mais tarde veio a sofrer forte derrota. Contudo, infelizmente, as poesias ou frases militantes de Brecht podem hoje ser usadas até pelos defensores do capitalismo, os adeptos da política de carreira oportunista, entre outros tão oportunistas ou usurpadores, distorcendo o significado original das palavras do poeta. Esquecendo ou escondendo que “decisões políticas” não são apenas as assinaturas dos eleitos no conforto de seus gabinetes, decisões políticas concretas também são tomadas no chão, no bairro, nas associações, nos sindicatos, nos movimentos sociais, e em cada gesto cotidiano nosso na luta por mantermos uma vida digna apesar da elite dirigente, é disso que Brecht deveria falar quanto às “decisões políticas”.

Um exemplo de significativa distorção das palavras de Brecht é o dos que pensam que o analfabeto político é simplesmente quem não se interessa por eleição e voto. Como se o exercício da política no seu sentido mais profundo e verdadeiro se resumisse ao ato coagido do voto obrigatório dentro do modelo da democracia representativa burguesa, de quatro em quatro anos. Como se “ser político” fosse apenas exercer o ato triste de poder escolher entre o ruim e o pior, para depois estar logo subordinado de novo à vontade das classes dominantes cuja materialização é viabilizada por seus mandatários nas prefeituras, câmaras, senados, governos. Concepção muito pobre de política, e conformista visto que em nenhum momento questiona as contradições reais da sociedade capitalista em seus fundamentos econômicos gerados e perpetuadores dos mais diversos tipos de injustiça, expropriação, opressão e ilusões ideológicas. Sendo assim quando um determinado candidato, só na época de eleição, vem nos perguntar:

— Você já tem candidato?
E dizemos apenas:
— Meu voto já está definido.
Ainda assim pergunta:
— Está definido de modo consciente?
Respondemos:
— Sim, não sou uma máquina nem um animal, portanto tenho consciência.
Por fim, desesperadamente questiona:
— Mas em quem vai votar?
Cabe-nos esclarecer:
— Não votarei em nenhuma das opções favoráveis à classe dominante!
Então ele não consegue compreender:
— Ora mais então, como é possível? Está pensando em não votar ou anular?
Devemos então finalizar:
— Sobre sua pergunta você mesmo poder responder, cada um faça sua análise e decida.

Algumas mentalidades mais ingênuas ou mal intencionadas querem fazer passar a idéia de que não votar ou votar nulo é alienação ou analfabetismo político, contudo não se questionam sobre escolher entre o ruim e o tão ruim quanto, a partir de benefícios secundários e corporativos que cada um dos dois ofereça, é o analfabetismo maior. O analfabetismo político maior é pertencer à classe trabalhadora e votar nos representantes da classe dominante, o analfabetismo maior é acreditar alienadamente que o sistema de democracia formal representativa burguesa que vivemos pode proporcionar algum avanço na direção das transformações sociais radicais que necessitamos para realmente acabar com a expropriação do homem pelo homem. Nesse cenário, votar ou não votar pouquíssima diferença faz. Votarmos pela simples obrigação, para durante os demais quatro anos ficarmos alheios aos desmandos perpetrados com o aval de nosso próprio voto. Mais valeria não votar e passar os mesmos quatro anos atentos e vigilantes a cada passo dos mandatários das classes dominantes exigindo que façam tão somente o que devem fazer na materialização dos princípios constitucionais e de toda a legislação vigente. Algo que deveria independer de sigla. Mas é o contrário: independente de sigla, só têm provado fazer o que favorece as elites. O poder corrompe? Certamente no sistema atual para exercer o poder é preciso estar de algum modo corrompido, traindo princípios originários no caso dos eleitos de esquerda, mantendo a lei do mais forte, originária no caso dos de direita. Assim, quem é o analfabeto político? Existem muitos tipos de analfabeto político e todos nós podemos ser um pouco de cada um deles:

ANALFABETO POLÍTICO CANDIDATO
Acha que ser político é ter um número e uma sigla, esquece que a vida política é a vida na polis, na cidade, quer sair da cidade e ir para o gabinete, aliena-se da política real e faz da política de carreira sua vida em favor dos interesses de alguma minoria.

ANALFABETO POLÍTICO INTELECTUAL
Desde sua cômoda posição em alguma instituição renomada, acha que ser político é ter leitura de livros de sociologia e realizar altíssimas análises para no fim dizer apenas o que desde o início todos sabemos e com cujo peso temos que lidar diariamente: que temos que nos adaptar à flexibilidade do mercado capitalista, e inventar novas formas de sobreviver na selva da concorrência contemporânea.

ANALFABETO POLÍTICO LEI DE GERSON
Acha que o voto só é bom se com ele puder levar alguma vantagem e assim fica sempre se perguntando, mas que vantagem eu vou levar se votar nesse ou naquele candidato? O que ele vai me dar agora para eu votar nele? O que ele vai fazer por mim se ganhar, independente do que vai fazer pela sociedade?

ANALFABETO POLÍTICO CAMALEÃO
Concorda com tudo e todos, não tem nada a dizer contra o sistema, nem contra ninguém, procura ver o que há de bom em tudo do candidato se está diante dele, mas ao fazê-lo precisa concordar com o mesmo quando esse critica um terceiro. Quando está diante do terceiro usa o mesmo expediente. Está indiferente, não reclamará muito se seu candidato perder, não comemorará muito se ele ganhar.

ANALFABETO POLÍTICO FERVOROSO
Adota uma bandeira ou uma causa eleitoral como se fosse a eleição do seu candidato fosse decisiva para o destino de toda a sociedade, como se seu destino futuro estivesse comprometido caso seu candidato não ganhasse e ele não ascendesse a algum cargo previamente prometido.

ANALFABETO POLÍTICO IDEALISTA
Não conhece as leis econômicas que regem a sociedade capitalista e acredita que pela via eleitoral é possível “mudar a correlação de forças” e assim favorecer gradualmente o avanço para uma sociedade justa. Enquanto isso, dispõe-se a usar de meios injustos como fazer listagem de defeitos do candidato oposto, para realizar os “fins” supostamente justos, ele acha que os fins justificam os meios, e pensa que está fazendo tudo por amor à causa e não por vaidade, poder ou ambição.

E depois dizem que o analfabeto político é o homem do povo que não está interessado nesse mundo estranho que é a política de gabinete. Alienado é o rótulo que sobra para o trabalhador, tanto dado pelos mandatários das elites, quanto pelos pseudointelectuais de esquerda de origem pequeno-burguesa. “A culpa é do povo, que não sabe votar” – dizem os arrogantes “conscientes”. Não saber votar é o mal do homem comum que trabalha de sol a sol, chega em casa exausto, mal come e já desmaia na cama para continuar a lida no dia seguinte e ainda é cobrado de “se informar”, “escolher bem”, “procurar conhecer a história do candidato”. Que história? A que eles mesmos contam? Algum historiador disponibiliza toda a biografia desse cidadão que se candidata? Já pensaram lermos um dossiê de cada um deles? Para conhecer a história de alguém é preciso viver com essa pessoa. Mas qual desses que se candidatam vivem conosco, nos acompanham, sabem quem somos, sabem de nossos projetos, de nossas lutas, de nossas aspirações? Havendo um desses que tão bem conhecêssemos iríamos querer para ele a triste sina de ser mais uma peça a compactuar com esse jogo secular de cartas marcadas? Se não queremos ser analfabetos políticos é preciso aprender a ler essas coisas. No mais antes de queremos alfabetizar quem quer que seja, aprendamos o alfabeto da luta de classes, da expropriação da mais valia e da acumulação do capital, vivamos isso na pele para poder falar melhor sobre o que é. E não o aprendamos apenas nas cartilhas velhas dos partidos traidores da classe.