Espaço do Leitor.
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Em 25 de janeiro, publiquei aqui uma crítica ao dito falacioso “Freud explica”. Bastante difundido no senso comum e bem adequado à “caricatura do humorista”, à “má fé do ideólogo” e à “credulidade do ingênuo”. Dialogando com leitores sobre o tema, recordei-me de uma pergunta tão instigante quanto tal jargão: “você não acredita no inconsciente?”. Ela me foi feita, em sessão, em épocas diferentes, por duas psicoterapeutas das quais fui cliente, ora no serviço privado, ora no público. Digo ser inusitada a pergunta por o verbo “acreditar” estar geralmente reservado para: (a) algo mais elevado, objeto de fé e devoção – por exemplo: “você não acredita em Deus?”; ou (b) algo mais fictício, objeto de credulidade e superstição – como: “você não acredita em disco voador?”, “você não acredita em contos de fadas?”, “você não acredita em capitalismo justo?”. Por não supor ser o inconsciente uma divindade ou criação ficcional, nunca cogitei “acreditar” nele. Fosse um fato comprovado ou uma experiência concreta pessoal, eu poderia “conhecer” ou não. Sendo uma hipótese abstrata ou uma formulação teórica, poderia “concordar” ou não. Mas “acreditar” no inconsciente?
Por que falo disso? Porque, como apontei no outro texto, às vezes, a sociedade toma como verdade hipóteses dúbias ou imprecisas. Acata como objeto de fé mitos sobre a condição humana que têm valor como tais, mas que tomados por dogmas podem gerar imposturas na interpretação sobre o que seja nossa vida. Simplificando-a, banalizando-a, fechando-a em modos monológicos de conceber as relações sociais, suas possibilidades e limitações. Como dizendo que: “a origem de toda a subjetividade é a interdição cultural de uma energia originária, algures dita sexual”. Faço notar que um leitor crítico me sugeriu que tal “energia” deixou de ser chamada sexual, nos últimos escritos do mago de Viena. Mesmo que nenhum outro nome a ela se tenha dado, e ainda que muitos dos adeptos da causa freudiana insistam em manter a lenda dominante de toda “energia” psíquica ser sexual (libidinal). Em breve talvez se diga que nem de “energia” se trata, mas também de algo anônimo: uma função “ƒ”. Tornando tal discurso algo mais “algébrico”. E isso importa?
Só importa caso admitamos que eventos do cotidiano, como uma pergunta tola, tenham implicações na nossa visão geral sobre as coisas, como o entendimento sobre “quem somos nós”. E que reflexões gerais, como as psicológicas, tenham conseqüências para nossa vida, como quando uma ação terapêutica se guia por ela. Um desinformado, ao ouvir o clichê “Freud explica”, pode ter impressão de que nisto haja fundamento real ou prático, além da piada na roda de amigos. Ou pensar que a “explicação” do pensador valha para si. Se for curioso, pode perguntar: “mas de que modo explica, afinal?”. Assim, a quem tenha lido tal escritor cabe, ao menos, alertar sobre contradições implícitas, recriadas e ampliadas por muitos dos que o tentam seguir e divulgar. Note-se que a pergunta “Você não acredita no inconsciente?” não vem de pessoas que chamaríamos leigas, mas formadas em psicologia, que deveriam ter lido o próprio autor. O fato da pergunta se repetir, em tempos e espaços distintos, palavra por palavra, pode não ser “coincidência” e dar a desconfiar que em algum lugar se aprenda que inconsciente: “é algo que tem poderes especiais” (você acredita?); ou “é uma ficção” (você acredita?).
Primeiro a hipótese da “ficção”. Frente às críticas que fiz, um leitor contemporiza Freud dizendo que ele, no final da vida, já não sonhava fazer da psicanálise ciência, ficando ela mais como “arte”. Alguns de seus postulados seriam então por ele mesmo chamados de “mitos”, como o da “pulsão de morte”. Uma atitude mais honesta: destituir dos ditos psicanalíticos o status de “verdade científica” (explicação) e assumi-los como o que são: assertivas abstratas, metafóricas, míticas (especulação). Se tais mitos favorecem ou emperram a luta social pela emancipação humana, não porei em questão agora. A burguesia tem seus mitos, a classe trabalhadora tem os seus. Se “a religião é o ópio do povo” ou “o ópio é a religião do burguês”, não está em jogo aqui. Um mito vale para quem crê nele e assim funciona, tem sentido próprio, coerência interna, como ressalta o relativismo antropológico. Da lógica do leitor deduzimos que Freud, admitindo sua teoria ser feita de mitos: tira dela o peso de “explicação” – correlação causa e efeito; e confere valor tão legítimo quanto o da psicanálise a outras formas culturais de entendimento do real, tidas como míticas – como o xamanismo, o esoterismo, a astrologia, a quiromancia, as lendas populares, entre outros igualmente respeitáveis.
Tudo terá um só crivo: o mito é útil para uma prática que permita às pessoas superarem suas dores? Se for, não se poderá cobrar-lhe cientificidade, comprovação, criticidade ou concretude. Se a psicanálise é arte, como um quadro surrealista ou cubista, não precisa representar seu objeto com fidelidade. Somente lhe cabe produzir sentidos críveis com alguma condescendência ou encantamento. O reparo está feito: “não explica”, pois “nunca pretendeu explicar”. Logo não cabe crítica por fracassar na tentativa. Nesta lógica, o desejo e pronúncia de qualquer “explicação” fica por conta de “interpretações errôneas” ou de “ingenuidade do povo” que as ouve. “Freud jamais disse isso”, alegarão os devotos que não admitem que ele tenha cometido qualquer equívoco. Assim, a pergunta sobre “acreditar ou não” faz sentido agora como “você gosta desse tipo de arte?” ou “acredita nessas lendas e mitos?”. Fica mais clara a razão da questão das terapeutas e se afasta a necessidade de negar o “Freud explica” – ele apenas mitifica, confabula, romanceia. Essa é só a primeira hipótese para a pergunta sobre a crença no inconsciente. A segunda é a de se atribuir a essa entidade ficcional, metafórica, quiçá algébrica, algum poder divino.
Notamos que a “energia”, cujo nome no fim já não seria “libido”, cuja natureza já não seria sexual e, numa leitura mais permissiva, quiçá sequer se equipararia a nada do mundo físico conhecido, parece manter-se ainda assim “única” e mesmo onipresente, assumindo então um dos aspectos atribuídos à divindade. Contudo, não tenho notícia de Freud assumir isso publicamente. Na mística judaica também Deus era tratado de modo “algébrico” – como “Aquele que é”, aquele “cujo nome não pode ser pronunciado”. Um conceito que está no lugar da mais alta abstração, que não se pode representar por qualquer espécie de analogia, muito menos por ícones, imagens de qualquer na natureza. Sobretudo, nos textos antigos, “Aquele que é” se manifesta como voz: “Ouve, ó Israel”. Por nenhum outro sentido se lhe tem acesso senão pelo ato de ouvir. Ainda assim, fala por emissários, nunca em primeira pessoa. Ser algo que não se pode representar pela linguagem humana, é o que há de análogo entre “Aquele que é” e “Isto que está” – não se sabe se é energia nem qual, se for. Mas Freud, judeu freqüentador da sinagoga, como contam os biógrafos, chegaria a tal ponto? Assim, quando me perguntaram “você não acredita no inconsciente?”, que tipo de fé eu precisaria ter para crer no que ninguém sabe o que é?
Corrijam-me, mas há pistas de que as pessoas que fizeram a pergunta pautavam-se na crença de que o inconsciente “age sobre nossas vidas”, “nos conduz” – é o “animismo” que apontei no outro artigo, do cavalo que o cavaleiro não controla. Na fala daquela com quem mais convivi, orientando-me para certa atividade, ouvi: “Confie no inconsciente, ele dirá o que fazer”! Um “inconsciente” que orienta nossas ações. Dirão que é só “uma interpretação equivocada e absurda” dessa profissional, apesar de seus vários anos de convívio com a teoria. Contudo, se, na linha relativista, “acreditar” nos nossos mitos não é “equívoco”, mas coerência interna com nossas próprias referências, por que não pensar como ela? Além disso, a teoria não dá nenhuma base para se interpretar assim? Essa “força”, cujo nome ninguém sabe, essa incógnita tão poderosa que está em todo lugar, esse “x” barrado por uma cultura “c” na equação da origem de qualquer sujeito “s”, não parece mesmo tão onisciente, onipotente e onipresente? Os ditos críticos e esclarecidos, no interior do próprio freudismo, seguem se omitindo frente a esses equívocos, que não admitem ser da própria mitologia psicanalítica, mas são tão difundidos no senso comum e assumidos por profissionais desavisados. Enquanto isso, cabe a nós que lemos tais coisas nos mais diversos veículos, desde teses e livros a reportagens em revistas da grande imprensa, a tarefa difícil de devolver à população a pergunta tola: “e você, acredita nisso?”.
Por que falo disso? Porque, como apontei no outro texto, às vezes, a sociedade toma como verdade hipóteses dúbias ou imprecisas. Acata como objeto de fé mitos sobre a condição humana que têm valor como tais, mas que tomados por dogmas podem gerar imposturas na interpretação sobre o que seja nossa vida. Simplificando-a, banalizando-a, fechando-a em modos monológicos de conceber as relações sociais, suas possibilidades e limitações. Como dizendo que: “a origem de toda a subjetividade é a interdição cultural de uma energia originária, algures dita sexual”. Faço notar que um leitor crítico me sugeriu que tal “energia” deixou de ser chamada sexual, nos últimos escritos do mago de Viena. Mesmo que nenhum outro nome a ela se tenha dado, e ainda que muitos dos adeptos da causa freudiana insistam em manter a lenda dominante de toda “energia” psíquica ser sexual (libidinal). Em breve talvez se diga que nem de “energia” se trata, mas também de algo anônimo: uma função “ƒ”. Tornando tal discurso algo mais “algébrico”. E isso importa?
Só importa caso admitamos que eventos do cotidiano, como uma pergunta tola, tenham implicações na nossa visão geral sobre as coisas, como o entendimento sobre “quem somos nós”. E que reflexões gerais, como as psicológicas, tenham conseqüências para nossa vida, como quando uma ação terapêutica se guia por ela. Um desinformado, ao ouvir o clichê “Freud explica”, pode ter impressão de que nisto haja fundamento real ou prático, além da piada na roda de amigos. Ou pensar que a “explicação” do pensador valha para si. Se for curioso, pode perguntar: “mas de que modo explica, afinal?”. Assim, a quem tenha lido tal escritor cabe, ao menos, alertar sobre contradições implícitas, recriadas e ampliadas por muitos dos que o tentam seguir e divulgar. Note-se que a pergunta “Você não acredita no inconsciente?” não vem de pessoas que chamaríamos leigas, mas formadas em psicologia, que deveriam ter lido o próprio autor. O fato da pergunta se repetir, em tempos e espaços distintos, palavra por palavra, pode não ser “coincidência” e dar a desconfiar que em algum lugar se aprenda que inconsciente: “é algo que tem poderes especiais” (você acredita?); ou “é uma ficção” (você acredita?).
Primeiro a hipótese da “ficção”. Frente às críticas que fiz, um leitor contemporiza Freud dizendo que ele, no final da vida, já não sonhava fazer da psicanálise ciência, ficando ela mais como “arte”. Alguns de seus postulados seriam então por ele mesmo chamados de “mitos”, como o da “pulsão de morte”. Uma atitude mais honesta: destituir dos ditos psicanalíticos o status de “verdade científica” (explicação) e assumi-los como o que são: assertivas abstratas, metafóricas, míticas (especulação). Se tais mitos favorecem ou emperram a luta social pela emancipação humana, não porei em questão agora. A burguesia tem seus mitos, a classe trabalhadora tem os seus. Se “a religião é o ópio do povo” ou “o ópio é a religião do burguês”, não está em jogo aqui. Um mito vale para quem crê nele e assim funciona, tem sentido próprio, coerência interna, como ressalta o relativismo antropológico. Da lógica do leitor deduzimos que Freud, admitindo sua teoria ser feita de mitos: tira dela o peso de “explicação” – correlação causa e efeito; e confere valor tão legítimo quanto o da psicanálise a outras formas culturais de entendimento do real, tidas como míticas – como o xamanismo, o esoterismo, a astrologia, a quiromancia, as lendas populares, entre outros igualmente respeitáveis.
Tudo terá um só crivo: o mito é útil para uma prática que permita às pessoas superarem suas dores? Se for, não se poderá cobrar-lhe cientificidade, comprovação, criticidade ou concretude. Se a psicanálise é arte, como um quadro surrealista ou cubista, não precisa representar seu objeto com fidelidade. Somente lhe cabe produzir sentidos críveis com alguma condescendência ou encantamento. O reparo está feito: “não explica”, pois “nunca pretendeu explicar”. Logo não cabe crítica por fracassar na tentativa. Nesta lógica, o desejo e pronúncia de qualquer “explicação” fica por conta de “interpretações errôneas” ou de “ingenuidade do povo” que as ouve. “Freud jamais disse isso”, alegarão os devotos que não admitem que ele tenha cometido qualquer equívoco. Assim, a pergunta sobre “acreditar ou não” faz sentido agora como “você gosta desse tipo de arte?” ou “acredita nessas lendas e mitos?”. Fica mais clara a razão da questão das terapeutas e se afasta a necessidade de negar o “Freud explica” – ele apenas mitifica, confabula, romanceia. Essa é só a primeira hipótese para a pergunta sobre a crença no inconsciente. A segunda é a de se atribuir a essa entidade ficcional, metafórica, quiçá algébrica, algum poder divino.
Notamos que a “energia”, cujo nome no fim já não seria “libido”, cuja natureza já não seria sexual e, numa leitura mais permissiva, quiçá sequer se equipararia a nada do mundo físico conhecido, parece manter-se ainda assim “única” e mesmo onipresente, assumindo então um dos aspectos atribuídos à divindade. Contudo, não tenho notícia de Freud assumir isso publicamente. Na mística judaica também Deus era tratado de modo “algébrico” – como “Aquele que é”, aquele “cujo nome não pode ser pronunciado”. Um conceito que está no lugar da mais alta abstração, que não se pode representar por qualquer espécie de analogia, muito menos por ícones, imagens de qualquer na natureza. Sobretudo, nos textos antigos, “Aquele que é” se manifesta como voz: “Ouve, ó Israel”. Por nenhum outro sentido se lhe tem acesso senão pelo ato de ouvir. Ainda assim, fala por emissários, nunca em primeira pessoa. Ser algo que não se pode representar pela linguagem humana, é o que há de análogo entre “Aquele que é” e “Isto que está” – não se sabe se é energia nem qual, se for. Mas Freud, judeu freqüentador da sinagoga, como contam os biógrafos, chegaria a tal ponto? Assim, quando me perguntaram “você não acredita no inconsciente?”, que tipo de fé eu precisaria ter para crer no que ninguém sabe o que é?
Corrijam-me, mas há pistas de que as pessoas que fizeram a pergunta pautavam-se na crença de que o inconsciente “age sobre nossas vidas”, “nos conduz” – é o “animismo” que apontei no outro artigo, do cavalo que o cavaleiro não controla. Na fala daquela com quem mais convivi, orientando-me para certa atividade, ouvi: “Confie no inconsciente, ele dirá o que fazer”! Um “inconsciente” que orienta nossas ações. Dirão que é só “uma interpretação equivocada e absurda” dessa profissional, apesar de seus vários anos de convívio com a teoria. Contudo, se, na linha relativista, “acreditar” nos nossos mitos não é “equívoco”, mas coerência interna com nossas próprias referências, por que não pensar como ela? Além disso, a teoria não dá nenhuma base para se interpretar assim? Essa “força”, cujo nome ninguém sabe, essa incógnita tão poderosa que está em todo lugar, esse “x” barrado por uma cultura “c” na equação da origem de qualquer sujeito “s”, não parece mesmo tão onisciente, onipotente e onipresente? Os ditos críticos e esclarecidos, no interior do próprio freudismo, seguem se omitindo frente a esses equívocos, que não admitem ser da própria mitologia psicanalítica, mas são tão difundidos no senso comum e assumidos por profissionais desavisados. Enquanto isso, cabe a nós que lemos tais coisas nos mais diversos veículos, desde teses e livros a reportagens em revistas da grande imprensa, a tarefa difícil de devolver à população a pergunta tola: “e você, acredita nisso?”.
